MATERIAIS COLABORATIVOS

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7 – ALUMBRAMENTO

Embora a dinâmica do processo criativo de canção popular se baseie mais em seu caráter instantâneo do que em uma elaboração pormenorizada, essa conduta geral é fertilmente subvertida por compositores de canção que se referenciam nos mais variados processos de criação musical.

 

P.C. PINHEIRO

 00:00 o processo criativo de P.C. Pinheiro

 01:22 “sempre me exercito”

 02:13 em algum momento…

Eu sento, fico ouvindo muito a música,
e em algum momento acontece:
Vem uma palavra, uma frase, e ela me diz:
“É por aí que você tem que andar”, aí eu vou.

 Quer dizer: eu sou, um servo, um escravo, um cativo da música
o que ela me disser pra fazer eu faço

É assim que eu trabalho.

Não é a minha ideia que eu ponho em cima daquela música
a música é que me diz a ideia que ela quer
é assim o meu processo de trabalho.

 

A orientação recebida por intermédio de José Miguel Wisnik na banca de qualificação[i], que contribuiu para a concepção deste projeto, apontou no sentido da realização de entrevistas que investiguem os meandros do ato criativo-performático de cada artista entrevistado.

WISNIK

Para a realização das entrevistas considero fundamental
que seja registrada a relação do artista com o instrumento.
Que cada coisa que ele diga ele mostre.
Se fizer isso você terá depoimentos como nunca foram feitos.

Por exemplo, o modo como Luiz Tatit compõe;
de que modo ele se relaciona com o instrumento
e extrai elementos que têm potencial entoativo.

E assim para cada um, pelo modo de ser daquele artista.
No caso de Luiz Tatit a entoação;
nos demais, certamente você vai encontrar outro tipo de questão motivadora
que é perseguida por aquele artista.

 

Esse objetivo, assim pronunciado, levou-nos a dar prioridade ao aspecto “pessoal” como uma das “questões motivadoras” da própria pesquisa. Questão que encontra nítida reverberação no trecho do depoimento de João Bosco – transcrito a seguir – que nos revela a ideia de “segredo intuitivo” como fator determinante para um processo que resulte em composições de características próprias.

 

JOÃO BOSCO

 00:00  nunca se sabe direito

Mas quando se trata de algo próprio, pessoal,
há sempre uma referência que é um segredo intuitivo que cada um tem.

Eu não sei direito de que forma ele aponta pra essa referência que vai produzir um caminho musical.
Isso é um processo que foge à minha alçada de tradução.

Mas ele existe,
e são várias situações que forjam esse momento.

Eu falo sobre o meu, já que tenho um também.

Às vezes ele acontece subitamente, num solavanco,
às vezes ele vem numa velocidade lenta e você vai ficando diferente,

e vai sentindo que tem alguma coisa acontecendo.
Nunca se sabe direito.

 01:16 fazendo a pontaria

Eu prefiro pensar que a gente deve estar sempre mirando, fazendo a pontaria,
porque você não sabe a que horas a coisa passa.

Enquanto essas coisas não se traduzem, você vai se desenvolvendo…
a sua técnica de tocar,
a sua forma de cantar.

Você está se preparando para o momento, e não sabe quando,
nem como,
nem que tipo de coisa vai acontecer.

Mas estar pronto é um dever.

 

No âmbito da música composta para violão de concerto, Sérgio Assad – que é também professor – não se distancia dessa mesma referência ao conduzir os anos de formação de seus alunos.

Joao Bosco e Sergio Assad

 

ASSAD

 00:00 composição não se ensina

Eu acho que composição não se ensina.
Ninguém ensina uma pessoa a compor, isso não existe.

Você pode é dar as ferramentas para ela usar no que já faz.

 

O paradigma de uma atuação baseada em soluções pessoais para uma “invenção” do que viria a ser o Brasil é Heitor Villa-Lobos.[i] Sua música é “o nascedouro de grande parte dos elementos que identificamos ser nacionais na linguagem musical brasileira, seja ela erudita ou popular” (JARDIM, 2005, p.23). Assim o compositor, muito em virtude de seu especial talento como melodista, instaura um campo de intersescção dentro da música brasileira que se alimenta do trânsito – de mão dupla – entre a canção popular e a música erudita.

 

VILLA-LOBOS

O que há de mais interessante nestes choros (‘Choros nº5 – Alma brasileira’)
são as cadências rítmica e melódicas irregulares e postas em compasso quadrado
dando uma disfarçada impressão de “rubato”,
ou de execução melódica se retardando,
que é justamente a característica mais interessante dos seresteiros.[i]

 

O músico brasileiro herda o desafio de manejar de forma criativa e desimpedida expressões oriundas dos universos musicais que compõem a “extensa diversidade” de que fala Wisnik[i] e que excede, assombra, alumbra. O mapeamento das sete entrevistas realizadas – que constituem nossos sete capítulos – apresenta-se como o resultado de um esforço no sentido de estabelecer tantas articulações quantas fossem possíveis, diante do meu universo de atuação e da natureza do presente trabalho.

 

P.C. PINHEIRO

 00:00  sem fórmula

Então criar,
inventar,
compor,
não tem fórmula,
isso gira de tantas maneiras diferentes na cabeça de alguém,
que é muito difícil de explicar isso.[i] […]

 00:19 Triologia do Alumbramento (João Nogueira/P. C.Pinheiro)[i]

“Súplica
“Poder da criação”
“Minha missão”

 02:43 o importante é quer a nossa emoção sobreviva

Não sei se consegui explicar…
acho que sim.

SARAIVA

No mínimo vc emocionou muita gente
que é tão mais importante do que conseguir explicar.

 

P.C. PINHEIRO

E o meu lema de vida
que você até lembrou agora
sem querer
“o importante é que a nossa emoção sobreviva”[i]
acima de tudo.
a gente está aqui pra isso.

 

PODER DA CRIAÇÃO

João Nogueira / Paulo Cesar Pinheiro

Não, ninguém faz samba só porque prefere
Força nenhuma no mundo interfere
Sobre o poder da criação
Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito
Nem se refugiar em lugar mais bonito
Em busca da inspiração
Não, ela é uma luz que chega de repente
Com a rapidez de uma estrela cadente
Que acende a mente e o coração
É faz pensar que existe uma força maior que nos guia
Que está no ar
Bem no meio da noite ou no claro do dia
Chega a nos angustiar
E o poeta se deixa levar por essa magia
E o verso vem vindo e vem vindo uma melodia
E o povo começa a cantar, lá laia laiá
Lá lá laía laiá

 

Encerro as entrevistas tocando Costa da Lagoa, tema que compus à margem da Costa da Lagoa da Conceição, numa alvorada esplendorosa.

 00:00  Costa da Lagoa – Chico Saraiva por Duo Saraiva-Murray  (produção Paulo Bellinati)

  1. Banca realizada em 05 de outubro de 2012 composta pelo orientador Gil Jardim, José Miguel Wisnik e Ivan Villela.

  2. LINK com a ideia “quando eu fui inventar o Brasil ele já estava inventado, mas Villa-Lobos teve que inventar o Brasil” – depoimento de Tom Jobim em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura – gravado em 20/12/1993. Disponível em: < www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/260/tom%20jobim/entrevistados/tom_jobim_1993.htm > Acesso em 21/11/2013.

  3. Depoimento de Villa-Lobos apresentado na palestra proferida por Hermínio Bello de Carvalho no MEC em 06/11/1970.

  4. Em citação que não entrou neste excerto mas que se encontra no livro baseado nesta dissertação.

  5. Esse trecho encerra o capítulo – 3.3 – a canção sem violão – momento imediatamente anterior a esse na entrevista com P. C. Pinheiro.

  6. Verso de Mordaça, de Eduardo Gudin e P.C. Pinheiro.

  7. LINK com vídeo de Paulo Cesar Pinheiro e João Nogueira tocando a Triologia do alumbramento.

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