MATERIAIS COLABORATIVOS

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5.3 – é teu? – com Guinga

GUINGA

 00:00  Estudo 1 e Estudo 7 – trechos de Villa-Lobos

SARAIVA

Como esse repertório chegou até você?

GUINGA

Se for para falar de violão erudito,
foi com o Jodacil Damasceno, assessorado pelo João Pedro Borges,
que tive um contato formal para tentar colocar isso no meu caminho.

 01:12 eu não faria isso

SARAIVA

E você acha que isso te influenciou muito no plano da composição?

GUINGA

Influencia. Eu não faria isso, por exemplo:
[toca inteira sua Nítido e Obscuro][i]

Se não fosse Léo Browuer.
Na época eles me mostraram e eu não sabia quem era.
Aí gostei daquela coisa rítmica do Browuer[i]

e pensei: Pô mas eu posso aplicar isso do meu jeito no baião.

SARAIVA

 01:59 isso vem muito de…

[toca variações rítmicas com o mesmo material harmônico]

GUINGA

 02:16 Roberto Mendes, Gilberto Gil, João Lira…

SARAIVA

 02:34 e te gerou:

 

Procuro perguntar – através de minha execução – de que maneira Guinga chega à essência de uma composição que se entrelaça a uma “levada” de mão direita, e que sempre aceitará alguma variação natural à rítmica do gênero, nesse caso, o Baião. [i]

 

SARAIVA

E isso te levou a essa essência

[toco o trecho inicial da composição de maneira desacelerada, frisando vocalmente a inflexão resultante das escolhas composicionais]

 

GUINGA

Isso é bem brasileiro.
É o violão, que é também um instrumento percussivo,
tentando imitar um instrumento que é só percussivo.[i]

Roberto Mendes estava me explicando isso uma vez,
dizendo que a chula lá do recôncavo baiano é que deu aquela argamassa
para a introdução do ‘Expresso 2222’ do Gilberto Gil.
[toca]

03:15 Expresso 2222 levando a uma toada de lá

SARAIVA

[a partir dessa lembrança toco um “ponteado” baseado na chula]

GUINGA

Isso é teu?

SARAIVA

Não, é uma toada qualquer.
Uma toada qualquer não, uma toada de lá.

Um samba de roda.[i]

 

Trata-se de uma “toada” tradicional do repertório de samba de roda da Bahia.[i] O pensamento vertical, que leva a imaginarmos uma determinada “harmonia” para essa música, nos revelaria a utilização de apenas dois acordes, de cifra C e G7. Acordes que não representam a essência desse discurso musical baseado no jogo que se estabelece em sentido horizontal entre a melodia cantada e o “ponteado”, de teor rítmico-melódico, do acompanhamento.[i] Discurso que ganha em significado na medida em que é coletivizado através da dança e do apelo “popular”, fazendo com que o “espectador” seja agregado à realização que, assim, transcende a esfera estritamente musical.[i]

Interpreto, não sem algum risco, que quando Guinga questiona a autoria da música executada, interroga, em verdade, se eu agora vinha compondo esse tipo de música em vez da música que ele já conhecia de outros encontros musicais que ocorreram entre nós, nos quais sempre senti reproduzirmos uma situação de transmissão no formato mestre-discípulo.

A pergunta: “É teu?” é aqui salientada a fim de que abordemos outra questão central para este estudo. Questão que se revela na polaridade entre a música “de autor”, e a música que trabalha no sentido de ser “alçada ao anonimato”, condição que favorece um consequente sucesso popular.[i]

 

SARAIVA

Você faz um giro dessas coisas que é sensacional.

GUINGA

 04:15 o giro de Guinga

[toca de um só fôlego duas de suas músicas inspiradas no baião – Coco do coco (Guinga/Aldir Blanc) e Geraldo no leme (Guinga)]

 05:43 evocação ao Baião

 06:29 por outro lado há os violões dos Caymmis

Um outro discurso, mais contemplativo.

SARAIVA

Um negócio que vem mais do mar né?

GUINGA

Mas é maravilhosamente rítmico do jeito dele.[i]

 

Apresentamos agora um trecho de outro momento de conversa com Guinga que nos levará ao outro extremo dessa dicotomia entre o “anônimo” e o “autoral”, que perpassa a história da música ocidental. Conversa que parte de observações de Guinga acerca da relação entre “o tocar” e “o compor” no processo criativo de Baden Powell:

 

SARAIVA

 00:00  pergunta: a equação entre o cancionista e o violonista em Baden

GUINGA

 00:24  resposta: Baden e Turíbio [i]

 01:49  é outra coisa

SARAIVA

Com relação a como Baden compõe canção.
Um cara que tem muita técnica de violão…

GUINGA

Um monstro como violonista…

SARAIVA

…e na hora dele compor canção…

GUINGA

…é outra coisa.

SARAIVA

Já não vai pelo caminho…

GUINGA

…do solista

SARAIVA

…do violão

GUINGA

O violão está na mão mas a cabeça é de compositor popular.
É o sentimento, as tristezas e as alegrias dele.

Um compositor de samba monstruoso, que jogou o barroco dentro do samba,
O ‘Última forma’[i] talvez seja ainda o samba brasileiro mais “moderno”. […]

 03:07 o que você entende por modernidade?

  1. LINK com a mesma música em – 3.1 – a não canção?.

    .

  2. LINK com a ideia “a música de Brouwer tem um vínculo com a música popular tradicional cubana, na qual o aspecto rítmico é protagonista” apresentada em – 5.2 – uma pergunta para Browuer – no depoimento de Sérgio Assad.

  3. LINK com a ideia “todo o aparato sonoro em Cuba é uma ampliação ou transformação da percussão e do violão” apresentada em – 5.1 – “Gagabirô” – na citação de Leo Brouwer.

  4. LINK dos exemplos relativos ao “samba de roda” apresentados no Track#18, em FAIXAS DO LIVRO do capítulo – 5.4 – rítmica brasileira – no depoimento Marco Pereira.

  5. LINK com a primeira das categorias da esquematização apresentada em – 3 – canção: graus de ação do instrumento no processo criativo.

  6. LINK com a ideia “it is in fact a colletive effort that is expressed in the behavior of individuals” apresentada neste mesmo capítulo em citação de Blacking.

  7. LINK com a ideia “Totonho é autor de diversos ‘pontos’ que, partindo do ‘fundamento‘ insere traços sutilmente ‘diferentes’ na melodia” apresentada em – 6.2 – o “Jongo” de Bellinati e o “Jongo do Tamandaré”.

  8. LINK com o exemplo de samba de roda apresentado em – 5.4 – rítmica brasileira – no depoimento de Marco Pereira.

  9. LINK com a ideia “o puro mesmo está ‘lá’. Uma tribo isolada tinha seus conhecimentos passados de geração em geração” apresentada em – 2.2 – matrizes rítmicas – no depoimento de Marco Pereira.

  10. LINK com a ideia que dá nome ao sub-capítulo – 6.5 – uma coisa poética dentro de uma coisa com suingue – extraída do depoimento de Guinga.

  11. Última Forma (Baden Powell/Paulo César Pinheiro) pode ser ouvida a 1m37s do programa MPB Especial em 13/04/1973. Direção: Fernando Faro.  Ao mencionar essa canção Guinga valoriza aspectos do processo criativo de Baden Powell que nos levam à ideia de “moderno”.  

    LINK com a ideia “algumas vinham já com o violão, outras vinham vindo na cabeça, apresentada em – 3.3 – a canção sem violão – na descrição do processo criativo de Baden Powell por P. C. Pinheiro.

  12. LINK com a ideia “decantar a ‘essência’ do material musical e procurar fazer com que ela seja grafada” colocada para Sérgio Assad a partir da resposta formulada por Leo Broweur em – 5.2 – uma pergunta para Brouwer.

     
  13. LINK com depoimento de Turíbio, justamente sobre Baden, no capítulo – 3.3 – a canção sem violão.

     

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