MATERIAIS COLABORATIVOS

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2.3 – matrizes melódico-harmônicas

No que tange às relações melódico-harmônicas, nossos diálogos investigam as possibilidades de articulação entre o que nasce do instrumento e o que nasce da voz, questão que se entrelaça com a dicotomia do que percebemos como matéria musical de “natureza harmônica” ou de “natureza melódica”[i]. Essa contraposição, que é histórica no percurso da música européia, surge em diversos momentos deste trabalho, muito impulsionada pelo contraste entre a “cifra alfanumérica” de recorte “vertical” – habitualmente utilizada para anotações harmônicas por quem manuseia canção popular – e o material com sentido linear que se desenvolve em direcionalidade “horizontal” e pede a escrita em partitura.

Seguindo a trajetória de Sérgio Assad, regressamos universo do violão solo ligado á tradição escrita:

 

ASSAD 

00:00 vertente de compositor avariada ao entrar na Escola de Música

Na época em que chegamos no Rio [ano de 1969] eu já me dedicava ao violão,
e minha atividade principal era com o Duo Assad.
Quando eu entrei para a Escola Nacional de Música para estudar “Regência”
a minha vertente de compositor, se é que eu tinha alguma, ficou avariada.
Porque na época a música dodecafônica, e a herança do Koellreutter, eram muito fortes
Estava todo mundo preocupado com essa estética musical.
Eu me sentia envergonhado, já que as coisas que me ocorriam naturalmente eram canções.
Ainda tentei fazer um pouco de música serial mas, como não conseguia, acabei desistindo 

01:56 retomada com Piazzolla, Radamés, Gismonti

02:56 foco na canção:  a construção de belas melodias

Meu foco sempre foi a coisa da canção
onde eu comecei, foi assim que eu comecei
portanto é sempre buscando melodias
eu acho que é uma coisa muito difícil você realmente construir belas melodias [i]
isso é uma qualidade que poucas pessoas tem.
Os caras que tem são consagrados
e vão deixar essas músicas memoráveis que todo mundo lembra.

 

O processo composicional de um autor que equilibra a experiência prática do “saber fazer canções”, com os recursos de quem se desenvolve no sentido de “escrever música elaborada”, conduz-nos a uma investigação que lida com a tensão entre a “tradição escrita” e a “não escrita”.

Guinga nos apresenta em voz e violão trechos de músicas de Tom Jobim, ressaltando aspectos que o fascinam:

 

GUINGA

00:00  Tom Jobim: Canção em Modo Menor

01:07 Um rancho das nuvens[i] 

Guinga apresenta a primeira parte da música que se desenvolve assumindo a tonalidade de Si Maior para resolver em sua tonalidade relativa, de Sol sustenido menor. O acorde de G#m7 se vale de uma décima primeira (11), que é salientada em seu efeito pelo músico no segundo compasso do trecho transcrito na página seguinte. Momento em que Guinga apresenta Jobim explorando – uma vez mais – as relações de mediante [terças][i], por meio do movimento que parte da tonalidade estabelecida de Sol sustenido menor, que fecha a primeira parte, e alcança o acorde de Dó menor triádico – que abre o momento contrastante da composição – levando finalmente (e também por relação de mediante) ao Mi menor também triádico. Outra forma de expressão dessa “mesma” e “simples” tríade menor.[i]

 

GUINGA

02:00 fiz por causa disso: Pra quem quiser me visitar (Guinga/A. Blanc)

 

O efeito da transição entre a tonalidade estabelecida de Sol sustenido menor e o acorde de Dó menor frisado pelo arpejo descendente de tríade na melodia, me remete a uma música do próprio Guinga, da qual toco ao violão o trecho transcrito abaixo, cantando a letra de Aldir Blanc para deixar claro a qual música me refiro.[i]

Pra quem quiser me visitar, composta um tom abaixo, se vale dessa mesma relação harmônica ao se desvencilhar da tonalidade menor estabelecida [Fá sustenido menor] e iniciar – em momento equivalente também no que tange à estrutura formal da composição – sua parte contrastante em Si bemol menor. Dessa forma, Guinga se alimenta da mesma relação de mediante que Jobim – por sua vez – assimilou, muito provavelmente, através de seu manuseio de pianista do repertório romântico[i] de tradição erudita, que, assim, representa toda uma frente que alimenta – como importante “matriz” – a música de Tom Jobim.

 

Guinga reage à lembrança mobilizada por essa equivalência entre as duas composições.

 

GUINGA

Foi por isso!
Foi por isso que eu fiz a segunda parte daquela minha música em homenagem a ele.
[toca, primeiro sozinho depois comigo]

Pra quem quiser me visitar

Guinga/Aldir Blanc

[A1]
Fiz o meu rancho lá nas nuvens
Onde se pode conversar,
Onde os anjinhos são cor de chope…
Tomo cuidado só em debruçar
Vendo o mar, aí…
[A2]
Toco piano e a virgem canta,
Diz pro menino: tio tom.
Senta à vontade a cocha santa
Me dá saudade de Leblon.
[B]
Sei das manhãs
Que só nascem de tarde
Entre silêncios de alardes,
Vi que o sol sente inveja das asas do urubu…
[A3]
Aos meus amigos que ficaram
Um portador há de levar
Um par de asas
E um paraquedas
Pra quem quiser me visitar.

[a transcrição descritiva – no livro – segue intercalando observações e indicações no esmiuçar da relação entre a partitura e o momento ali vivido]

  1. Um Rancho nas Nuvens – Tom Jobim
  2. Vale ressaltar que a questão da enarmonia é um dos pontos-chave para o estudo do conflito entre a tradição escrita e não escrita. Já que a relação entre Sol sustenido menor e Dó menor [de quarta] exigiria um ajuste – enarmonizando para Lá bemol menor por exemplo – para que a relação de mediante [terça] com Dó menor não se perdesse. Ajuste esse que não é adotado por Jobim, entre outros fatores, pela quantidade de bemóis existentes na armadura de clave de Lá bemol menor. Da mesma forma como acontece, um tom abaixo, entre Fá sustenido menor e Si bemol menor na música de Guinga apresentada a seguir.

  3. LINK com a ideia “(o uso da) ‘cifra alfa-numérica’ faz com que cada acorde ganhe uma dimensão de maior autonomia com relação ao centro tonal” apresentada em – 6.1 – ver fazer: “Jimbo no jazz”.

  4. As duas composições estão nessa mesma página, ainda que em tonalidades diferentes, a fim de facilitar a comparação salientada pelas marcações do momento equivalente nas duas composições.

  5. Período em que as relações de mediante se estabelecem dentro do repertório de concerto.

  6. Vale ressaltar que a evidente relevância da melodia africana – mesmo instrumentalmente (no repertório de Kora, por exemplo) – não apresenta “natureza harmônica”, ao menos nos moldes europeus.

  7. LINK com ideia “Jobim ficou muitos meses elaborando, procurando as linhas melódicas, soluções. Uma música muito rica, uma obra-prima, que não sai de um dia para o outro.” de Bellinati em – 6.2 – o “Jongo” de Bellinati e o “Jongo do Tamandaré”.

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