MATERIAIS COLABORATIVOS

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3.1 – a não canção?

SARAIVA

00:00 a canção e a voz

A minha sensação é que quando a gente está inventando música
tem coisas que vêm mais pela via da voz
e outras vêm do violão.

GUINGA

00:00 sempre pela voz

Não, a canção vem sempre pela voz.

SARAIVA
Sempre pela voz?

GUINGA
Comigo sempre pela voz.
Quando eu faço uma música sem estar cantando eu já sei que é uma música para o violão.
Mas eu sou compositor de canção, não sou compositor de música para o violão.
Passei a vida inteira com o violão na mão, se contabilizar tem até alguma coisa considerável composta pra ele, mas eu sou compositor de canção.
Por favor… esse é o grande orgulho da minha vida.
Tentar ser um bom compositor de canção,
tenho passado a minha vida inteira tentando isso.

01:02  a não canção?

SARAIVA
E como você vê a influência que os gestos violonísticos
têm no percurso melódico de uma canção?

 

Toco o trecho inicial do baião Nítido e obscuro[i], salientando com a inflexão vocal articulações que, em certa medida, se fazem presentes nos acentos da digitação de mão direita apresentados na partitura que reproduzimos na sequência:

 

GUINGA
Essa aí era uma música que não tinha nenhuma pretensão em ser canção. 
Mas fica bom. Com quem consegue cantar fica muito bom!

Mas não é como você fazer
[toca]

01:25 duas canções: Senhorinha (Guinga/P.C. Pinheiro) e Lendas brasileiras (Guinga/A. Blanc)

 

A fim de relativizar minha observação sobre essa “música que não tinha pretensão nenhuma em ser canção”, Guinga toca duas de suas músicas que representam o outro extremo de uma polaridade que aqui se revela. Canções de andamento lento e com movimentos melódicos baseados em graus conjuntos pontuados por saltos melódicos em intervalos consonantes[i], que são tocadas uma seguida da outra.

 

GUINGA

02:15 eu nunca fiz música sem o violão na mão

 

A conversa com Sérgio Assad nos remete a Garoto, e caminha até Pixinguinha:

 

SARAIVA

00:00   Bellinati: tudo o que Garoto fez é canção [i]

ASSAD

01:39  quando tem muita nota fica difícil de passar a mensagem como canção

02:44  isso é discutível…

03:00  existe essa tradição de uma música que nasce instrumental mas tem esse “fundo de canção”

03:40  as melhores canções tem poucas notas [i]

04:30  para o músico “canção” significa uma coisa mais desacelerada

 

Tanto na formulação de Assad quanto nos dois exemplos escolhidos por Guinga para representar seu viés autoral intrinsecamente ligado à voz, percebe-se a associação do termo “canção” com uma música de natureza lenta. Uma música que alcança “a greater breadth of expression” e um desejado “abandonment to melody”, quando emprega “poucas notas e mais respiração”, a fim de facilitar a “veiculação da mensagem que o texto está querendo passar” [i]

Em meio a esse contexto, o olhar do letrista se apresenta como parâmetro importante, que, em alguns casos, chega até mesmo a selecionar dentro da obra do compositor-instrumentista as melodias que revelem, através de seu contorno melódico, a vocação de canção. P.C. Pinheiro foi o responsável pela conversão de inúmeros temas instrumentais – alguns já consagrados nesse formato mesmo antes de receber letra – em canções.

 

P.C. PINHEIRO

00:00  Amazon River com Dori Caymmi

00:44 Ingênuo com Pixinguinha

00:58 a música me diz[i]

 

Dentro dessa “tradição de uma música que nasce instrumental” com “um fundo de canção” vale mencionar ainda o caso de Carinhoso, composta em 1916 por Pixinguinha. Composição basilar para a música brasileira, que, nascida instrumental e letrada posteriormente por João de Barro, vem sendo entoada por plateias inteiras há décadas. Fato que é indício da fertilidade que o desenho melódico de origem instrumental [i] oferece para a canção no Brasil desde seus primórdios.

Desenho melódico traçado pelo “músico”, que se entrelaça com a poesia e a escuta do “cancionista”, representado pela figura do poeta. Poeta que, por sua vez, sente essa “origem instrumental” do material melódico um atributo que pende para o campo estritamente “musical”. O que o leva a manter, no mais das vezes, uma distância segura das infinitas possibilidades musicais que o instrumento proporciona, dimensão que pode representar uma ameaça à natureza e à fluência “entoativas” intrínsecas à melodia da canção.  [i]

  1. Excerto de partitura proveniente do livro A Música de Guinga, p. 111, Ed. Gryphus. 2003.

  2. Andamento de caráter oposto ao de Nítido e Obscuro e dinâmica intervalar significativamente diferente da percebida em canções como Pra quem quiser me visitar – apresentada no capitulo anterior – que baseia seu percurso melódico em intervalos dissonantes.

  3. LINK com essa mesma frase escrita em 6.3 – um problema antigo.

  4. LINK com a ideia “são várias situações que forjam esse momento” apresentada em – 7 – alumbramento – no depoimento de João Bosco.

  5. LINK com a ideia “canção dinâmica” apresentada em – 6.3 – um problema antigo – no depoimento de Luiz Tatit; 

    LINK com a ideia “numa boa canção quanto menos notas melhor” apresentada em – 4.2 – o idioma do violão – no depoimento de Sérgio Assad.

  6. LINK com a ideia “E não é assim. Às vezes faz batucando numa mesa, e vai passar para o violão depois.” apresentada em – 3.3 – a canção sem violão – no depoimento de P.C. Pinheiro.

  7. Nesse caso, nascido não de um instrumento melódico-harmônico mas sim de um instrumento – de sopro – que costumamos vincular mais diretamente com a expressividade melódica.

  8. LINK com a ideia  “O Garoto era um compositor que fazia canção no violão” em – 1.1 – um violão que canta – no depoimento de Paulo Bellinati.

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